Rastreamento de Câncer em Prisões: Por que Mulheres Idosas Estão Sendo "Esquecidas"
O sistema prisional feminino enfrenta um desafio crescente e invisível: o envelhecimento de sua população. Um novo estudo de revisão, publicado na revista científica Social Sciences, revela que mulheres encarceradas com 50 anos ou mais — idade em que já são consideradas "idosas" devido ao desgaste acelerado da saúde na prisão — enfrentam barreiras severas para acessar exames preventivos de câncer.
A pesquisa, liderada por Natalie Austin e Emma Plugge, da Universidade de Southampton, acende um alerta sobre a "oportunidade perdida" de salvar vidas em um ambiente onde o direito à saúde deveria ser equivalente ao da comunidade externa.
A Crise Invisível: Idosas aos 50 Anos
Diferente da população geral, mulheres no sistema de justiça criminal sofrem um fardo desproporcional de doenças crônicas e deficiências em idades mais precoces. No Reino Unido, por exemplo, o número de mulheres presas com mais de 50 anos saltou quase 180% entre 2003 e 2023.
Muitas dessas mulheres vêm de contextos de extrema pobreza, falta de moradia e histórico de abuso de substâncias, fatores que as colocam no grupo de maior risco para o desenvolvimento de tumores malignos.
As Principais Barreiras ao Rastreamento
O estudo identificou três categorias principais de obstáculos que impedem essas mulheres de realizar exames como o Papanicolau ou a mamografia:
• Analfabetismo e Falta de Informação: Em alguns estudos analisados, até 85,9% das mulheres nunca tinham ouvido falar sobre rastreamento de câncer cervical. Além disso, cerca de 50% das prisioneiras idosas são analfabetas, o que as impede de compreender panfletos informativos ou formulários de agendamento.
• Traumas do Passado: Um dado alarmante é que cerca de 99% das mulheres encarceradas possuem histórico de abuso ou violência sexual. Para muitas, o exame ginecológico realizado por profissionais masculinos ou em ambientes sem privacidade é revitimizante e traumático.
• Sentenças Curtas e Falhas Operacionais: Muitas idosas cumprem penas curtas, sendo libertadas antes mesmo de os resultados dos exames ficarem prontos. O estudo cita casos em que o tempo médio de espera para uma consulta ginecológica (24 dias) era o dobro do tempo total da sentença (11 dias).
O que Pode Mudar o Jogo?
Apesar do cenário preocupante, a pesquisa aponta caminhos eficazes para aumentar a adesão aos exames:
1. Apoio de Pares e Família: Ter um amigo ou familiar com histórico de câncer aumenta em mais de 3 vezes a chance de uma mulher procurar o rastreamento. O uso de "mentoras" (outras prisioneiras treinadas) ajuda a construir a confiança necessária para o cuidado com a saúde.
2. Unidades Móveis de Saúde: Trazer unidades de rastreamento para dentro da prisão é visto como algo mais digno, pois evita que as detentas sejam transportadas algemadas para hospitais públicos, reduzindo o estigma e a vergonha.
3. Comunicação Humanizada: Profissionais que demonstram empatia e utilizam uma linguagem acessível são determinantes para que a paciente se sinta segura em realizar o procedimento.
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| Imagem Ilustrativa IA |
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Conclusão: Um Imperativo de Saúde Pública
A ciência é clara: para reduzir a mortalidade por câncer nesta população vulnerável, é preciso mais do que apenas oferecer o exame; é necessário entender as cicatrizes sociais e emocionais que essas mulheres carregam. Como destaca o estudo, garantir o rastreamento não é um privilégio, mas uma questão de justiça social e direitos humanos básicos.
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