Criar galinhas na Sala de Aula pode melhorar aprendizagem, diz estudo científico.
Uma Metodologia de Ensino de Ciências inovadora. Uma turma, três galinhas: como um projeto escolar na Finlândia virou aula viva de sustentabilidade Pesquisadoras de três universidades escandinavas acompanharam, por uma semana, uma turma do 5º ano em uma escola multicultural na Finlândia que decidiu chocar ovos e criar pintinhos dentro da sala de aula.
O estudo, publicado na revista Sustainability, mostra que o projeto foi muito além da aula de ciências: ensinou os alunos a lidar com nascimento e morte, fortaleceu vínculos entre colegas de origens diferentes e se tornou um exemplo concreto de educação para a sustentabilidade — tanto ecológica quanto social.
Tudo começou com a ideia de um único aluno. Samir, estudante do 5º ano em uma escola de periferia urbana na Finlândia, ouviu de um colega que havia galinhas em outra escola e resolveu propor a mesma coisa na sua turma. Ele conversou com o professor, foi até a direção pedir autorização, ligou pessoalmente para fazendas em busca de ovos fecundados e ajudou a negociar a compra de uma chocadeira. Semanas depois, os primeiros pintinhos nasciam dentro de uma sala com 25 alunos de origens culturais diversas — e o que era um pedido informal de um garoto se transformou em um estudo científico sobre como animais podem redesenhar o aprendizado escolar.
Por que colocar animais dentro da sala de aula
Ter bichos de estimação em salas de aula não é incomum — peixes, lagartos, porquinhos-da-índia e hamsters aparecem com frequência em pesquisas sobre o tema, principalmente nos Estados Unidos, na Austrália e no Reino Unido. Estudos anteriores já haviam associado a presença desses animais a ganhos de empatia, redução de agressividade e maior integração social entre colegas. Mas poucas pesquisas haviam investigado o assunto do ponto de vista dos próprios alunos, e menos ainda em contextos de sala de aula culturalmente diversos, como o dessa escola finlandesa, onde vários estudantes tinham o finlandês como segunda língua.
O objetivo das autoras era responder a uma pergunta central: criar galinhas em sala de aula pode promover aprendizagem — e, mais especificamente, aprendizagem sobre sustentabilidade? A resposta, segundo o estudo, é sim, mas de um jeito mais amplo e inesperado do que apenas ensinar biologia.
Da chocadeira à sala de aula: uma aula viva de ciências
As conversas registradas pelas pesquisadoras mostram uma mudança perceptível na forma como os alunos falavam sobre o projeto. No início, Samir explicava com vocabulário do cotidiano como conseguiu o incubador e negociou com a fazenda. Poucos minutos depois, ao descrever o nascimento dos pintinhos, ele já usava termos técnicos com precisão — temperatura em graus Fahrenheit, tempo de incubação, cuidados com a casca do ovo — sinal de que a linguagem científica estava sendo incorporada organicamente, a partir de uma experiência concreta, e não de um texto decorado.
O processo também trouxe questões que um livro didático dificilmente abordaria com o mesmo impacto emocional. Dos cinco ovos que chocaram, dois pintinhos morreram — um deles precisou ser sacrificado por estar debilitado, outro foi encontrado morto após aparentemente ser bicado pelos demais. Diante da morte dos animais, o professor Esa aproveitou o momento para discutir com a turma temas de biologia humana, como reprodução e desenvolvimento fetal, e organizou até o enterro simbólico dos pintinhos em um canteiro da escola.
Mais do que ciência: empatia, responsabilidade e convivência
Ao longo da semana de observação, as pesquisadoras registraram cenas de afeto constante entre alunos e aves: crianças segurando os pintinhos com cuidado, alimentando-os com minhocas coletadas no jardim da escola, levando-os para "passear" pela sala e até fotografando-os repetidamente com celulares. Em um dos registros mais simbólicos do estudo, um pintinho sobe até o teclado do computador de uma aluna durante uma aula de finlandês — evidência de como o animal havia deixado de ser um "recurso pedagógico" isolado para se tornar parte do cotidiano da turma.
O projeto também exigiu organização coletiva: alunos se revezavam para alimentar as aves, limpar o terrário e, antes da eclosão, virar os ovos três vezes ao dia conforme instruções que eles mesmos documentaram em um caderno de acompanhamento. Segundo as autoras, não houve disputas relevantes sobre quem cuidaria dos animais — um indício de que a responsabilidade compartilhada fluiu naturalmente entre a turma, independentemente de gênero ou origem cultural.
Um projeto que conectou a escola ao mundo lá fora
O estudo destaca que a criação das galinhas não ficou restrita às paredes da sala de aula. A família de Samir, cuja cultura de origem tinha tradição de criação de aves, se envolveu diretamente no processo, ajudando a buscar os ovos em uma fazenda durante um fim de semana. A turma também manteve contato constante, por telefone e aplicativos de mensagem, com o gerente da fazenda parceira — inclusive para combinar a devolução das aves ao final do projeto. Para as pesquisadoras, esse tipo de conexão entre escola, família e comunidade é justamente um dos pilares da educação para a sustentabilidade social: construir confiança, sentido compartilhado e capacidade de autogestão em grupo.
O que a ciência já sabia — e o que esse estudo confirma
A literatura científica sobre animais em sala de aula é ambígua quanto aos ganhos de aprendizagem: alguns estudos mostram que assistir a vídeos sobre um animal pode gerar resultados de conhecimento tão bons quanto ter o bicho de verdade por perto, ou até melhores em testes cognitivos. O diferencial identificado no novo estudo é o tempo de convivência: enquanto experimentos anteriores expunham os alunos aos animais por períodos curtos, a turma finlandesa conviveu com os pintinhos por semanas, tocando, conversando e recebendo reações reais dos bichos — o que, segundo as pesquisadoras, tende a gerar um envolvimento emocional mais profundo do que qualquer gravação em vídeo.
Limites do estudo
As próprias autoras reconhecem as limitações da pesquisa: a amostra é pequena, restrita a uma única turma e a uma semana de observação, o que impede generalizações. Também não foi possível comparar os resultados com uma turma em que a sustentabilidade não fosse já uma prioridade do professor — o que dificulta isolar o efeito específico do projeto das galinhas em relação ao estilo pedagógico do docente responsável, que tinha 30 anos de experiência e forte compromisso pessoal com temas ambientais.
Ainda assim, o estudo reforça um ponto central: cuidar de um ser vivo, com toda a imprevisibilidade que isso implica — nascimento, doença, morte, convivência com o diferente —, pode ensinar sustentabilidade de um jeito que nenhuma apostila consegue reproduzir sozinha.
Perguntas frequentes
Qual foi o principal achado do estudo? Que criar galinhas em sala de aula, além de melhorar o aprendizado de ciências, promoveu o desenvolvimento de empatia, responsabilidade, comunicação e coesão social entre alunos de origens culturais diferentes — elementos centrais da educação para a sustentabilidade.
Quem teve a ideia do projeto? Um aluno da turma, chamado Samir no artigo (nome fictício), que soube de um projeto parecido em outra escola e convenceu o professor e a direção a autorizá-lo.
O projeto teve momentos difíceis? Sim. Dos cinco ovos chocados, dois pintinhos morreram, e a turma precisou lidar com essas perdas — episódios que o professor aproveitou para discutir biologia humana e o ciclo da vida.
Esse tipo de projeto pode ser replicado em outras escolas? As autoras acreditam que sim, mas alertam que exige um professor disposto a investir tempo extra, verificar alergias entre os alunos e garantir o bem-estar dos animais, que não devem ser tratados como meros recursos didáticos.
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A pesquisa, conduzida por Lili-Ann Wolff, da Universidade de Helsinque, Sari Vuorenpää, da Universidade de Estocolmo, e Pia Sjöblom, da Universidade Åbo Akademi, foi publicada na revista Sustainability, da editora MDPI. Usando métodos de etnografia — observação direta, filmagens, entrevistas e análise de conversas —, as pesquisadoras acompanharam uma semana de rotina da turma em maio de 2018, registrando como a presença dos pintinhos, batizados pelos próprios alunos, influenciou aulas, recreios e até o período após o horário escolar.
Fonte: Wolff, L.-A.; Vuorenpää, S.; Sjöblom, P. "Chicken Raising in a Diverse Finnish Classroom: Multidimensional Sustainability Learning". Sustainability 2018, 10, 3886. DOI: 10.3390/su10113886. Confira o estudo na íntegra aqui






